Café - Elucubrações 7 (A experiência segundo Larrosa e a câmera lenta do Hugo)
No seu artigo para a revista
Tremores de nome Escritos sobre a experiência, Larrosa
nos instiga a pensar sobre a experiência e como as condições
propícias para que surjam experiências se tornam cada vez mais
raras na contemporaneidade. No esforço de procurar esclarecer o que
é uma experiência ele a distingue de mera informação, de um
conhecimento ou então de um saber e ressalta o caráter inefável da
experiência que faz com que, quando ela nos acontece, nós sabemos
que há algo único, diferente e cuja a potencia é inegável, mas
que normalmente não sabemos nomear ou descrever.
Transportado para o contexto
das artes cênicas e mais especificamente das técnicas de
interpretação teatral, essa ideia de que um acontecimento pode ser
simplesmente isso ou então conter algo de mais que é indescritível
lembra a ideia da flor utilizada por Zeami1
para definir os momentos sublimes da interpretação de um ator
(GIROUX, 1991, pp.105-119). Segundo ele a execussão de uma ação
cênica, mesmo que técnicamente perfeita, nem sempre resulta no
desabrochar de algo sublime e irrepetível como o desabrochar de uma
flor na natureza que só acontece em condições muito especiais, com
as podas, regas e manejos próprios. Muitas vezes a planta pode até
crescer e se desenvolver, mas levar anos para gerar uma flor e mesmo
essa flor, por mais frondosa que seja não pode escapar à sua
natureza efêmera e logo desaparece fugáz deixando apenas os rastros
da sua beleza na experiência de quem a testemunhou. A experiência,
para o ator é um desabrochar de uma flor para a sua
interpretação e se não houver experiência, isto é, se o ator
estiver apenas executando sua partitura física ou soltando as
palavras do seu texto sem vivê-las faltará sempre aquela coisa
insólita e indescritível na sua interpretação.
Mesmo sem utilizar as palavras
“experiência” ou “flor” nos seus trabalhos cênicos,
o diretor e ator Hugo Rodas insiste em que os seus atores consigam
“viver” sua interpretação em detrimento de apenas executarem
uma partitura de ações físicas. Isso fica evidente quando, após
assistir à performance de um ator, ele faz comentários como “é
bom, mas não me toca”, isto é, está bem executada a cena, mas
falta algo para que aquilo que se está fazendo seja poderoso o
suficiente para atingir quem assiste. E no que consiste esse “algo”
enigmático? Será a experiência de que fala Larrosa? Será a flor
de Zeami? Devido à natureza indizível desse fator enigmático, não
parece possível chegar à respostas absolutas para estas perguntas,
já que, como nos explica Larrosa, a exepriência será
inevitavelmente algo diferente para cada um (LARROSA,2014). Contudo,
já que é um elemento tão crucial para a arte do ator, é mister
que façamos uma reflexão ainda que se saiba que estamos pisando em
terrenos pantanosos e escorregadios.
Suponhamos que se o ator
conseguir realizar sua performance experienciando-a a cada momento
uma flor da sua interpretação desabrochará não só no seu
coração, mas também nos olhos e ouvidos do público, como então,
pergunto, podemos propiciar o surgimento dessa experiência? Existirá
alguma técnica para isso? Larrosa nos dá uma pista ao
postular que “a experiência, a possibilidade de que algo nos
aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção” (LARROSA,
2014, p.25). E nesse ponto uma interligação parece despontar entre
as técnicas de atuação propostas por Hugo Rodas e o surgimento da
experiência na performance dos seus atores, pois muitos dos seus
exercícios tem como procedimento a interrupção de uma linha de
pensamento comum, de um padrão viciado de movimentação ou de
criação, para possibilitar o surgimento de ideias inéditas e
inesperadas que forçam o interprete a vivê-las no momento presente
uma vez que elas são irremediavelmente novas.
Um exercício técnico
proposto pelo Mestre Hugo no qual se pode observar esse processo
ocorrendo de maneira mais clara é o exercício da “câmera lenta”
que consiste em realizar uma ação em uma velocidade extremamente
lenta, tão lenta quanto o nascer do sol ou o desabrochar de uma
flor.
Digamos que ação a ser
executada seja a de tirar a camisa que o ator esteja vestindo.
Existem muitas maneiras, insólitas ou não, criativas ou não,
inusitadas ou não, de se tirar uma camisa. Porém, principalmente
quande se trata de uma ação corriqueira como esta, existe uma
tendencia a que o performer escolha inconscientemente a maneira mais
fácil, ou o lugar mais comum para ele de retirar a camisa do corpo.
Tendo feito isso, ele terá executado a ação desejada, mas não
terá tido uma experiência, nem terá criado nada novo, e sua ação,
mesmo que bem executada terá pouca força cênica. Todos os dias, na
sua vida corriqueira, ele tira e bota muitas camisas, é uma ação
que já se tornou automática, já se tornou impensada, dificilmente
ele vive o momento de tirar a camisa a cada vez que faz essa ação.
Da mesma maneira, na hora de estar em cena, o mesmo padrão monótono
e impensado se repete. Por outro lado, se ele tiver que executar essa
ação em câmera lenta, algo totalmente diferente ocorre com o
interprete. Em seu interior, a seguinte sequência costuma ocorrer:
Em um primero momento sua
mente vai para o lugar comum de todos os dias, a forma mais usual de
tirar a camisa. Porém, como o tempo que a mão leva para chegar até
a barra da camisa para puxá-la é extremamamente dilatado, a mente
se cansa desse primeiro pensamento e começa a divagar. Muitas ideias
começam a surgir espontaneamente: “E se eu pegasse a barra com a
mão invertida?” “E se em vez de puxar minha camisa pela frente
eu puxar ela por trás?” “E se eu começar não pela camisa, mas
por abaixar meu corpo para que ela escorregue pela pele até o chão?”
“Puxa, como demora para a mão chegar até a barra; acho que vou
virar meu corpo ligeiramente para que a mão chegue logo.” E com
esses pensamentos, de milímetro em milímetro a sua movimentação
se distancia do lugar comum e se direciona para algo mais criativo.
Mas não para por aí, com a lentidão extrema, a mente se cansa até
mesmo dessa efervecência de pensamentos e então surge algo que é
ainda mais precioso: o borbulhar de pensamentos desaparece e não
surge mais nada em seu lugar. A mente fica absorvida na ação,
imersa no momento presente de instante a instante, sentindo cada
infimo pedaço de camisa descolar do corpo. Não há nenhuma barreira
para a criatividade nesse estado de espírito. Ocorre uma interrupção
em todos os exessos que impedem a experiencia. Não há excesso de
informação, não há excesso de opinião e não há excesso de
trabalho, e, pelo contrário, há uma ausência de opinião, uma
ausência de informação e uma ausência de trabalho, em outras
palavras, há uma imersão completa no tempo dilatado e generoso da
lentidão (LARROSA, 2014, p 18, 19, 22 e 23). E com essa experiência
a flor pode então desabrochar.
Analisando objetivamente esse
procedimento vemos que uma provocação técnica (realizar uma ação
em câmera lenta) gerou uma situação na qual o artista é forçado
a sair do seu lugar comum do dia a dia no qual não há espaço para
a experiência e o colocou em comunicação direta com o inefável
que há dentro dele. E isso ocorreu atrvés de uma interrupção dos
padrões mentais que levam o artista a sempre repetir a ideia mais
previsível, familiar e, portanto, menos criativa toda vez em que ele
deve executar alguma ação cênica.
GIROUX,
Sakae M. Zeami: Cena e pensamento Nô. São Paulo:
Perspectiva, 1991.
LARROSA,
Jorge. Tremores: Escritos sobre a experiencia. Belo
Horizonte: Editora Autêntica,
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